segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Santo Aleixo

Segui a Bia até esse pequeno lugar que tem o teu nome.
Na capelinha, contaste-me da tua solidão. Que era feito das dezenas de famílias que por ali habitavam e te veneravam? Quem vive agora nas ruínas de muitas dessas casas?
Tive pena de ti, meu santo porque também eu sinto, em cada dia que passa, a desertificação do meu ser.


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Mulheres

2012 - Pormenor de pintura mural - Setúbal
Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas brigam por aquilo em que acreditam.
Elas levantam-se para uma injustiça.
Elas não levam "não" como resposta
quando acreditam que existe melhor solução.

Elas andam sem novos sapatos
para suas crianças poderem tê-los.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.

Elas choram quando suas crianças adoecem
e se alegram quando suas crianças ganham prémios.
Elas ficam contentes quando ouvem
sobre um aniversário ou um novo casamento.


Pablo Neruda

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Titã-Fragmento

2012 - «Titã-Fragmento» - Escultura de Beatriz Cunha - Sintra

Quando era pequeno e tinha avós que lhe contavam histórias, o titã tinha duas faces, como todos nós na idade em que absorvemos a ternura dos mais velhos.
Um dia os avós partiram e o titã ficou fragmentado. Um pedaço dele partiu também, talvez o da inocência desses tempos.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Saudade

2010 - Alcanhões

Saudade é solidão acompanhada, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já...    
Saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida... 
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...  
Saudade é o inferno dos que perderam, é a dor dos que ficaram para trás, é o gosto de morte na boca dos que continuam...  
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade: aquela que nunca amou.  
E esse é o maior dos sofrimentos: não ter por quem sentir saudades, passar pela vida e não viver.  
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido

Pablo Neruda.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

De noite


2012 - «Erzhulie» pormenor de escultura de Haude Bernabé - Sintra
Não era manhã, nem tarde.
Pelo escuro que se via, com certeza, era já noite.
E é na noite, mesmo que seja dia, que os caciques, pequenos deuses caseiros, tecem as suas artimanhas.

domingo, 22 de julho de 2012

O Fauno

2012 - «Fauno» - Escultura de José Alves - Sintra
No seu pequeno bosque, o fauno procura enredar na sua música as jovens (e algumas pastoras já maduras) que por ali pastoreiam os seus rebanhos.

O que ontem era um ser humano, hoje é um fauno, um misto de animal e de homem, sendo que deste apenas lhe ficaram os testículos e o pénis.

domingo, 8 de julho de 2012

Uma mulher envelhecida de olhos tristes

2011 - Mouraria - Lisboa
Dizia o poeta, na voz do cantor, que a menina de olhos tristes, sem mãe e com o pai inválido veria um milagre, que seria o de casar com um rapazinho muito bonitinho, com um bom emprego.
Provavelmente o poeta não acreditava em tal milagre.
Mas a menina viria mesmo a casar com um rapazinho muito bonitinho e com um bom emprego.
E o menino viria a ser o filho desse casal.
O que o poeta não disse, porque aconteceu depois, foi que o rapazinho apenas era  bonitinho no corpo. Quando ficou sem o bom emprego revelou que era era muito feio de alma.
Agora, se o poeta passasse na praia, veria uma mulher madura, envelhecida, de olhos tristes.

sábado, 7 de julho de 2012

Mãe

1979 - Vila Real de Santo António
Foi há 21 anos que partiste.
Tenho saudades tuas minha mãe.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Vinhos do Porto

2011 - Montra de estabelecimento - Sintra
Beber para comemorar o acórdão do tribunal constitucional ou beber para esquecer esse acórdão?
Na dúvida, foi bebendo até despejar a garrafa. Depois deitou-se e, quando acordou no dia seguinte, teve uma certa sensação de vazio.

As portas que Abril abriu

2012 - Pintura mural do PCP - Setúbal

«E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.»

José Carlos Ary dos Santos (As portas que Abril abriu)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Foto do Manuel em dia de felicidade

Grafitti em Setúbal

Para grandes males, grandes remédios!
E Manuel sorriu ao lembrar-se deste velho provérbio popular, só ele sabia bem porquê.
Mas que estava feliz, lá isso estava.

domingo, 17 de junho de 2012

A velha casa

2012 - Omnias - Santarém

Naquela casa se criaram filhos, se fizeram homens.
Naquela casa morreu, já velhinha, a pobre que não chegámos a conhecer.
Mais tarde, já abandonada, serviu de ninho para os casais enamorados.
Da casa de há muitos anos e que tanta vida teve apenas restam umas paredes de pé e a grade de ferro numa janela.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Almoço junto à árvore

2012 - Parque das Nações - Lisboa
Ao ver esta jovem a almoçar, próximo da empresa onde trabalha, recordei Ferreira de Castro, no romance "A Lã e a Neve", no qual gravou, de forma indelével, a luta pela sobrevivência dos operários de lanifícios da Covilhã. Vivíamos, então, no Estado Novo e esperava-se o fim da segunda guerra mundial e dias de felicidade para a classe trabalhadora.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Antepassados

2012 - Londres - Foto do Miguel
Ainda noite escura, esperando pela hora do ataque ao supermercado.

terça-feira, 1 de maio de 2012

1º de Maio: Dia do pão por Deus?

2012 - Campo de papoilas - Vila Chã de Ourique
Bastou o patrão do Pingo Doce acenar com uns restos do que lhe sobra e foi ver trocarem-se as comemorações do 1º de Maio pelas filas e discussões que em alguns casos chegaram mesmo a meter polícia.
Ditosa pátria que tais filhos tem!

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Lembrança

2002 - Cabo Verde
Ponho um ramo de flores
na lembrança perfeita dos teus braços;
cheiro depois as flores
e converso contigo
sobre a nuvem que pesa no teu rosto;
dizes sinceramente
que é um desgosto. 
 Depois,
não sei porquê nem porque não,
essa recordação desfaz-se em fumo;
muito ao de leve foge a tua mão,
e a melodia já mudou de rumo.
Coisa esquisita é esta da lembrança!
Na maior noite
na maior solidão,
vem a tua presença verdadeira,
e eu vejo no teu rosto o teu desgosto,
e um ramo de flores, que não existe, cheira! 
 Miguel Torga 

sábado, 28 de abril de 2012

Um homem de coragem

2012 - Azenhas do Mar
Disse um dia destes Miguel Portas: "Fui sempre mais de jogar fora do baralho."
Houvesse mais Homens destes, com a coragem de sair de um dos dois baralhos da política portuguesa e Portugal poderia ser um outro país
Mas a passagem de homem de rebanho para homem livre não é fácil.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Pesca dos frágeis

2011 - Caneiras - santarém
Quando o pescador lançou as redes, pensei nos políticos deste pobre país.
As malhas das redes que usam são tão estreitas que apanham todo peixe pequeno.
Mas são tão frágeis que qualquer peixe mais graúdo as rompe.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 de Abril

2011 - Salgueiro Maia - Santarém
Naquela já distante noite, quando eu dormia, os soldados de Abril encheram o povo de esperança.

Hoje tenho uma certa sensação de amargura. O que outrora foi uma manhã de sol radioso, que prometia inundar todo um povo, é agora um triste dia de nevoeiro.



terça-feira, 24 de abril de 2012

Dia de saudade

2012 - Azenhas do Mar
Vi as casas construídas bem no alto das arribas.
Admirei homens que voavam em parapente muito acima das casas.
E, embora não te conseguisse ver porque a minha visão é limitada, senti a tua presença e relembrei o teu sorriso.

domingo, 8 de abril de 2012

Vidas moldadas

O banco vergou.
Mas antes de vergar sentiu a alegria e tristeza, o amor e ódio de quantos por ali se sentaram.
Depois o banco cedeu, adaptou-se ao peso e à dimensão dos problemas das pessoas que por ali se sentavam.
E as próprias pessoas foram também moldando o seu sentir, adaptando-se, sobrevivendo, agarradas a um fio do que foi um caudal de vida e de amor.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Epígrafe

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida, 
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça? 
Procuremos somente a Beleza, que a vida 
É um punhado infantil de areia ressequida, 
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...
Eugénio de Castro

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Flor de um jardim inventado

Porque hoje é um dia em que sentimos a saudade, fui ao nosso jardim inventado e colhi esta flor de camélia para ti.




quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

1973

As fotos antigas dos meus familiares deixam-me com uma enorme sensação de perda, de solidão, de fim de caminho.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A Travessa da Espera.

Sempre morou por ali, no Bairro Alto, na Travessa da Espera.
Na realidade, há vários anos que todo um povo vive na Travessa da Espera.

Almoços

O almoço no Largo Camões não foi faustoso. Pedaços de uma ou duas sandes.
Por essa hora, junto ao mar, no Guincho, um dos banqueiros de um banco falido almoça por uns míseros cento e tal euros.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O navio chegou à cidade

O navio chegou à cidade.
Grande navio!
E tantos turistas!
E alguns pedintes à espera de esmola.
E eu a correr para o trabalho.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sob a copa dos pinheiros

No bosque, sob a copa dos pinheiros, viu-se envolvido pela magia da natureza, ouviu a sua voz nos insectos, nas aves, no vento.
Sentiu-se parte da vida que inunda o bosque.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Terra Fria


«Nem eu sei quando nasceu no meu espírito este amor pelos povos minúsculos, pelas repúblicas em miniatura, por todos os que vivem isolados no planeta.»

Ferreira de Castro, Terra Fria, 1934.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Fernão Capelo Gaivota

«Tem alguma ideia de por quantas vidas tivemos de passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando?»
Richard Bach, Fernão Capelo Gaivota