domingo, 30 de janeiro de 2011

O motorista do autocarro

Por volta de 1998, acompanhei um grupo de jovens a Manteigas. Eram promessas de escuteiros de um grupo em formação.
Fomos de Santarém a Belmonte por comboio. Em Belmonte seguimos de autocarro até Manteigas.
A euforia dos adolescentes que acompanhava era enorme. Para muitos, era a grande aventura nunca antes vivida fora do seio familiar.
O motorista do autocarro sorria. Fazia a conta dos jovens que entravam e continuava a sorria. Fez a viagem a sorrir. Despediu-se de nós a sorrir.
Parece que antevia a aventura e a felicidade dos adolescentes que nos acompanhavam e, sorria, imaginando talvez, que a sua adolescência também poderia ter sido assim.
Como gostava de o tornar a rever. Para lhe agradecer os seus sorrisos

Teresa

A sua presença na escola foi sempre notada. Por ser inteligente e por ser solidária.
Ainda hoje correm os seus apontamentos de uma disciplina que leccionei.
Terminou o seu percurso naquela escola da forma mais exemplar.
Quem a visse, depressa a compararia com uma Deusa. Tal a segurança na apresentação, não falando da excelente qualidade do trabalho desenvolvido.
Mas o que mais me sensibilizou foi o seu afecto. O agradecer à mãe os sacrifícios que tinha feito, para que ela florescesse.
Lembrei uma certa mulher do campo, tão humilde, tão trabalhadora, tão carinhosa, mas a quem a morte não deixou ver as provas definitivas da licenciatura do seu filho.
Por isso admirei aquela mãe e, quem sabe, se não vi nela a minha própria mãe.

sábado, 29 de janeiro de 2011

A felicidade de ter amigos

Sinto-me feliz!
Ontem jantei com três grandes amigos: o Rui, a Susana e o Miguel.
Três amigos que um dia encontrei na formação e que hoje, sinceramente, creio ter encontrado em vidas anteriores, tal é o afecto que a eles me liga.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

De mão dada

Naquela velha igreja, escondidos no meio do povo crente, deram as mãos e apertaram os dedos, numa fome de amor que os consumia.
No outro dia, ainda o sol não raiava, já estava do outro lado da fronteira.
Por detrás da janela, a sua silhueta feminina recordava essa manhã já longínqua.  O seu Manel tinha sido apanhado pela guarda. Não voltou a fazer contrabando nem a apertar-lhe os dedos na missa do domingo.
Já velhinha, morreu em Tourém. Diz o povo que enlouqueceu de amor.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Contradições de uma gaivota

Por vezes pergunto-me porque razão, tendo eu tanta necessidade dos meus semelhantes sou, simultaneamente, tão insociável.
Se estou longe dos meus pares, sinto-me triste, só, perdida.
Se estou no seu meio, tenho vontade de fugir, de me isolar.
Contradições da idade? Expectativas frustradas?

domingo, 23 de janeiro de 2011

Eleições

O professor Marcelo afirmou que foram, essencialmente, os jovens que não foram votar.
Senti que tinha rejuvenescido!

sábado, 22 de janeiro de 2011

Fogareiro

O lume, que antes aquecia tudo em redor, não era agora senão um resto de carvão ardido.

O desespero do mar

E, apesar do ondular nervoso, intranquilo, ansioso, do mar, continuaste serena, esperando, como quem sabe como tudo termina, que as ondas revoltas deixassem de bater.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Deserto

A agitação da vida impede-te de ver claro.
Tudo começa a ficar limitado a um pequeno núcleo, onde já nada vive. Desertificámos tudo em nosso redor.
Quando dermos conta apenas existirá areia sem vida.
 

O primo rico

Em 1841 o artista pintou a padeirinha saloia, que de Mafra vinha vender o pão a Lisboa.
Na sua tela tudo era perfeito. O burrito, os alforges, o pão e, sobretudo, a saloia padeira.
O artista, contudo, não pintou a vida difícil da padeirinha. Em casa, os filhos à espera que um dos pães não se vendesse.
O artista também não pintou, porque se limitava a pintar o presente, que os filhos, netos, bisnetos, trinetos da padeirinha, continuaram a trabalhar no dia-a-dia para a refeição do dia seguinte.
Para falar verdade, existe um descendente da padeirinha que teve sucesso.
Dizem os primos, que ainda se dedicam ao negócio do pão, que pouco fez na vida. Mas o pouco que fez, fê-lo de forma acertada! Inscreveu-se num daqueles partidos políticos surgidos com o 25 de Abril. E em boa hora o fez. Hoje está rico.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O vendedor de galinhas

Corria o ano de 1804. Ambrósio do Cano veio para Lisboa vender galinhas. As senhoras compravam.
Ambrósio casou, teve um filho, de nome Ambrosino.
Ambrosino foi visto em Lisboa, no ano de 1830, a vender galinhas.
O filho de Ambrosino, de nome o Ambrósio das Galinhas, criou os filhos com os dinheiro dos ovos e galinhas de um galinheiro que tinha no sitio que se chama hoje as Galinheiras. Morreu por volta de 1900.
Um filho do Ambrósio das Galinhas, nascido e criado nas Galinheiras, em Lisboa, fez vida à custa dos galinácios.
O Ambrósio das Galinhas teve vários filhos, netos, bisnetos.
Por volta do ano de 1980, um descendente de Ambrósio do Cano decidiu deixar de negociar em galinhas.
Foi o descalabro e a sociedade ficou muito mais pobre. Não porque tivesse faltado carne da pobre ave, mas porque ficou na sociedade muito mais avareza, falta de humanismo, porque as pessoas não são aves de capoeira.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Um rubi chamado Conceição

Na nossa vida existem organizações que nos marcam. O Citeforma foi, sem qualquer dúvida, a Instituição que mais contribuiu para a minha formação humanista. Por ali passaram centenas, milhares de pessoas que procuravam elevar-se. Com todos os graus de habilitações. Acreditavam em si e elegiam o Citeforma como o instrumento para a sua elevação.
E, foi assim que muitas das pessoas que conheci descobriram uma nova forma de vida, ganharam asas.
Se a vontade de quantos pretendiam aprender foi enorme, não menos grande foi o querer de um conjunto de formadores entusiamados.
E que apoio esses formadores tiveram da direcção do Citeforma, que sempre os acarinhou!
E, sem que os formandos o notassem, o carinho de tantos colaboradores do Citeforma, que zelavam para que tudo corresse bem.
De entre esses colaboradores, a minha amiga Conceição. Um rubi nesse relógio de qualidade que é o Citeforma.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Bubakar

Ao ver a foto deste menino em S. Tomé, lembrei-me de uma reportagem dada na tv.
Bubakar era um jovem guineense que depois de cerca de dois anos de espera na Guiné, conseguiu vir para Portugal, para se tratar de uma doença grave.
Para isso, a mãe, que já havia perdido os familiares mais chegados, vendeu o pouco que tinha e veio para Portugal com o menino.
Era já demasiado tarde para o Bubakar. Morreu no dia 10 de Janeiro, no IPO.
Desolada, triste, perdida, sem recursos, a mãe sentiu todo o mundo estremecer. Revoltou-se contra si, contra os homens e contra Deus.
Que Deus é este que lhe deixa morrer os filhos e protege os corruptos e poderosos?

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Natureza

Quando parece que tudo corre mal, sento-me num jardim e observo a beleza que emana das flores.
Deixo-me transportar para uma outra dimensão e, bem depressa, esqueço a maldade de seres humanos, nem que seja por uns momentos.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O «Banana»

Faziam-lhe judiarias e ele sorria, sem levar nada a mal. Daí a que seu primo António lhe chamasse «banana» foi um salto.
Os anos passaram e sempre o conheci assim. Sem a coragem necessária para se revoltar, para dizer «não».
Sorria sempre, mesmo quando tudo parecia estar contra ele.
Até que, um dia, um ataque de coração terminou com a sua vida. E, quando deram com o seu corpo, encontraram-no sossegado, sorridente.

sábado, 8 de janeiro de 2011

A passarinha

Já a tinha visto perto de S. Domingos, entre a cidade da Praia e o Tarrafal. Mas não tive a oportunidade de a fotografar.
Foi em S. Filipe, na Ilha do Fogo, que capturei a sua imagem.
Enquanto fixava a objectiva rendia-me, submisso, pequenino, aos encantos, aos contrastes que se completam, à  natureza!
Que construção maravilhosa, plena de vida, de beleza, de contrários que se completam para continuar a vida.
Fotografei-a! A passarinha em todo o seu esplendor.

Menino rico

Fomos os três à pesca ao Tejo Velho.
Chegados, eu e o Luís Teodoro armámos as nossas canas de pesca, tão pequenas que mal conseguíamos atingir a profundidade do chabouco, nessa altura bem profundo. E, com fio que dava para pescar um tubarão, esperámos que algum peixe descuidado por ali aparecesse.
Afastado de nós, o António esgrimia a sua nova cana de competição, telescópica, que mantinha na mão. Ficámos a olhar, a sua destreza, o engodar permanentemente, a boia esbelta, o peixe a saír.
Olhámos um para o outro e pensámos: menino rico!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Pessoas boas

Há pouco tempo fiz uma viagem de táxi. E o que mais me impressionou foi o facto do taxista não ter desviado a cabeça durante toda a viagem. Para não falar da sua boca que nunca se abriu.
Enquanto apreciava o homem, lembrei-me de uma outra viagem.
Estudava e tinha de fazer o trajecto entre S. Bento e Santa Apolónia para apanhar o comboio para Santarém. Era já perto da meia-noite. Se não apanhasse um táxi não conseguiria apanhar o comboio.
E apanhei. Mas como o dinheiro escasseava e as dificuldades eram muitas, disse ao taxista que só tinha x escudos. Ele que me levasse até onde o dinheiro chegasse.
Ao passar no Terreiro do Paço, o taxista pára o carro e o taxímetro e anunciou-me que o dinheiro só dava até ali. Contudo, como ia para Santa Apolónia, dava-me boleia!
Há pessoas boas.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Cordero asado

Passou junto à montra de um restaurante e leu o prato do dia.
E ali ficou especado, embrutecido, pensativo.
Era precisamente o seu estado de alma nesse ano que entrava. Um cordeiro inofensivo, como os demais cordeiros do rebanho, assado para satisfação da gula insaciável de uns tantos.
E, curiosos, passaram outros cordeiros que, também, pararam, olharam e sorriram.
O rebanho é mesmo assim.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Alegremente, no autocarro

«Os camponeses tristes passam alegres no autocarro,
cantando e dando vivas ao longo do percurso.
Vão todos à cidade, de fato novo, aplaudir o discurso.
O discurso é triste, os camponeses são tristes,
mas passam todos, alegremente, no autocarro.
António Gedeão, Obra Poética