domingo, 31 de outubro de 2010

Mãe

Hoje foi dia de pensar um pouco em ti e de encher a tua última casinha com flores.
Quando partiste eu senti uma enorme tristeza. Parte de mim partia também. Como iria enfrentar a vida, tão só, quando partiam todos os que me eram queridos.
Vi depois que a tristeza não acabava no momento da partida. Quantos mais anos eu vivo mais saudades tenho tuas.

sábado, 30 de outubro de 2010

Cães submissos

Ao ver o pobre cão acorrentado e cheio de moscas, tive vontade de o soltar e de o deixar ir.
Mas depois pensei que, provavelmente, ele não saberia ser livre.
O cão não é diferente de muitos de nós, aparentemente humanos, mas também submissos de outros humanos mais poderosos.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Jovens de ontem

Juventude na vila de Alcanhões, há cerca de 40 anos atrás.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Ai que rico cajado

Contara-lhe o Ti Zé da Venda que ia haver eleições para a Presidência.
De um lado havia o homem do leme. Se não fossem os alertas daquele home o Toino já nem batatas tinha para levar ao lume.
Do outro lado, o que tinha faltado ao país era poesia.
Depois existiam ainda candidatos fora do sistema, dissera-lhe o Ti Zé da Venda.
O Toino teve vergonha de perguntar e o Ti Zé da Venda não saberia explicar.
Ambos sabiam que há muitos, muitos anos, a terra tinha donos. E os donos tinham sido sempre os mesmos. Ora agora governavam os laranjas, ora agora governavam os rosas, ora agora governavam os laranja-rosa.
E enquanto cozia batatas com pele de bacalhau pensava, consigo próprio, que seria engraçado meter-se ao pé das urnas. E quando o povinho, de fato domingueiro vestido, ali aparecesse para votar... Ai que rico cajado!

Coisas do coração

Fotografei-te, junto às águas cristalinas de uma ribeira no Gerês, na Páscoa de 1989.
Eras ainda uma criança. E eu um jovem pai.
Há dias fotografei-te novamente. Eras uma jovem senhora e eu um velho pai.
Mas o amor que nos une continua a ser o mesmo.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A partida

Decorria a década de sessenta do século passado.
Do navio que os conduzia a África, os soldados tiravam fotos aos seus familiares.
A partida era sempre um momento de sentimentos contraditórios.
Para os familiares, de extrema tristeza, pelas saudade já sentidas dos que ainda agora partiam.
Para os soldados, que partiam, de alegria e tristeza. Alegria, por romperem as fronteiras da aldeia, da vila. De tristeza, porque isso tinha um preço. Deixarem aqueles que amavam.
Foi o caso da Rosa, que chorou pela partida de quem amava. Foi também o do Joaquim, que sorria e chorava no seu interior.
Tempos tristes de um povo triste.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Folhas de Erva

«Quem quer que sejas, neste momento pouso a minha mão sobre ti, para que sejas o meu poema,
Os meus lábios murmuram junto ao teu ouvido,
Amei muitas mulheres e homens, mas não amei ninguém tanto como a ti.»
Walt Whitman, Folhas de Erva

domingo, 24 de outubro de 2010

Ciganos

Um dia destes, entrei no café do Jaquim, em Alcanhões, e senti uma voz amiga. Nós conhecemo-nos! De um pátio, onde ambos vivemos, na Avenida dos Combatentes, quando ambos éramos meninos.
E, apesar de terem passado tantos anos, eu vi a imagem daquele menino cigano que, tal como eu, também menino, brincava no pátio.
E recordei, também, com nostalgia, outros amigos de etnia cigana, meus companheiros de escola.
Grandes companheiros de quem tenho muitas saudades.

Chapéu preto

Lembro-me de uma cauteleira que fumava como um homem e que eu adorava.
Essa cauteleira, de nome Maria da Graça, era viúva de um irmão de meu avô, o António Quarto. Tinha tido três filhos, entre eles, o Manuel Joaquim. Este teve também três filhos, dos quais, um é muito conhecido: Pedro Choy.
Recordo ainda a Maria da Graça e a minha mãe, ambas já no céu, a cantarem o «chapéu preto»:

A azeitona já está preta,
Já se pode armar aos tordos.
Diz-me lá, ó cara linda,
Como vais de amores novos.

É mentira, é mentira,
É mentira sim, senhor!
Eu nunca pedi um beijo,
Quem mo deu foi meu amor!

Ó que lindo chapéu preto
Naquela cabeça vai.
Ó que lindo rapazinho,
Para genro do meu pai.

Quem me dera ser colete,
Quem me dera ser botão.
Para andar agarradinha,
Juntinha ao teu coração.


sábado, 23 de outubro de 2010

Vinho de palma

Partimos cedo da cidade de S. Tomé, rumo ao Sul, a Porto Alegre, conduzidos pelo Toni, motorista do grupo Pestana.
Já a nossa viagem estava perto do final, quando o Toni encosta o jeep na berma da estrada e sai do carro.
Como que por encanto, da floresta saiu um amigo. E, não tardou muito, estávamos a provar o vinho de palma do amigo do Toni.
Bendita terra cujas árvores até vinho dão.

Chaminé

Esta chaminé foi erguida há muitos, muitos anos.
No entanto, continua imponente, erguendo-se nos ares, sobre as casas.
Por detrás do segredo da velha chaminé, está o amor da mulher alentejana.
É ela que vai inventando mil e uma formas de cuidar da chaminé.
Quando deixa de o fazer é porque a vida findou.

Amora negra

A amora negra está já madura e pronta para ser colhida.
Hoje senti-me como a amora negra.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A faina dos camponeses

De madrugada, atravessavam a ponte D. Luís, vindos da Tapada e subiam à cidade de Santarém, onde abasteciam o mercado de frutas e legumes.
Depois, cansados do dia, deixavam-se conduzir de volta e regressavam às suas hortas.
E quantas vezes, em menino, do largo junto ao cemitério de Santarém, bem lá no alto, olhei para a ponte e vi carrinhos que a atravessavam e que eu imaginava serem carrinhos de brincar, tão pequenos eram aos meus olhos.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Enganos

Manuel e Maria sentiam-se cansados.
Gaita! Foi uma vida de sofrimento. De tostões contados no dia a dia. De fome.
Vinha agora aquele senhor Almeida Santos, um grande senhor do país, dizer que não podia ser apenas o governo a sofrer a crise. Tinha também de ser o povo.
Manuel e Maria sempre ouviram dizer que eles eram o povo.
Como podia aquele senhor do país vir dizer que o povo também tinha de sofrer a crise. Então como tinham vivido até aí, senão em crise?
Era isso. Só podia ser isso. O povo daquele senhor deveriam ser os ricos, os donos do país.
Manuel e Maria ergueram o peito e tranquilizaram. Agora eles também iam sofrer a crise!

sábado, 16 de outubro de 2010

Guernica

Ao contemplar o quadro de Pablo Picasso, «Guernica», imaginei um pobre povo espezinhado e derrubado por um Estado sugador, o Estado do grande capital financeiro, de uma dúzia de grandes senhores e dos seus capatazes.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O renascer dos mineiros

O renascer para a vida dos 33 mineiros chilenos foi uma alegria para todo um povo desta grande aldeia global.
Comoção, amor, coragem, mas sobretudo uma grande determinação colectiva e de nações no salvamento da vida humana.
Nem pareciam os mesmos homens que, diariamente, se matam uns aos outros.

Medula óssea

Em Santarém fui ver a exposição de trabalhos em cerâmica sobre a medula óssea, feitos por crianças de todo o país. E, em cada desenho, via a minha amiga Teresa e a sua luta para obter dadores para crianças e jovens em perigo de vida.
É de ouro o coração de muitos homens e mulheres deste mundo egoísta.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Lembras-te filho?

Quando me pedias colo pelo telefone e eu tão longe sem to poder dar?
Quando foste em coma para Lisboa e eu sem estar perto de ti para te amparar?
Quando necessitavas que eu te contasse uma história para adormeceres e eu não estava para a contar?
Quando precisavas de mim para te ajudar nos trabalhos da escola e eu não estava para te ajudar?

domingo, 10 de outubro de 2010

Gigantones

«A gente começa por ter, como o menino Jesus, a bola do mundo na mão... Depois a bola vai-se desfazendo, desfazendo...»

Miguel Torga, A Criação do Mundo

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O preço da liberdade

Esta foto é de 1973.
Naquele tempo não existia liberdade.
Também não existiam os fundos da CEE.
O país geria os próprios recursos sem ajuda alheia.
Praticamente não existiam autoestradas, mas existiam estradas bem conservadas, que até tinham os seus próprios conservadores, os cantoneiros. E existia o comboio que percorria praticamente todo o país.
Também existiam valores e palavra. Na altura seria impensável não cumprir contratos. Os ordenados não eram grandes, mas eram intocáveis. A carga fiscal era baixa.
Grande, é o preço da liberdade!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Homenagem a cinco pescadores de Caxinas

Tinha acabado de fotografar esta imagem que adquiri nos Açores, quando ouvi a notícia.
Cinco pescadores, tais os que conduzem o barco a bom porto, tinham falecido num acidente, quando se deslocavam de Vigo, em Espanha, para Caxinas, sua terra natal.
Estes homens lutaram horas e horas a fio, longe de casa, para ganhar uns míseros euros, com que alimentavam a família, enquanto, no mesmo país,
provavelmente, há quem trabalhe pouco mais que uma dúzia de horas por semana, recebendo o triplo ou quadruplo do que ganham os pescadores?
Contradições.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Cem anos de maus tratos


A República faz hoje 100 anos!
Ocasião para a felicitar e lembrar os maus tratos que tem recebido.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

S. Francisco de Assis, o primeiro ecologista

«Louvado sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz variados frutos, com flores coloridas, e verduras.»

S. Francisco de Assis, Cântico das Criaturas

domingo, 3 de outubro de 2010

Pontes

«Que nunca caiam as pontes entre nós»
Pedro Abrunhosa

sábado, 2 de outubro de 2010

Visão

Por entre as sardinheiras, na janela de madeira,
por detrás daquelas paredes.
Mesmo em frente aos meus olhos,
mas tão longe de mim.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Uma barraca com um submarino à porta

O Padre Fernando Ventura referiu que Portugal mais parecia uma barraca com um submarino à porta.
Espelha bem o estado do País, nas vésperas da comemoração da República.

Tristezas

«O povo tem que sofrer as crises como o Governo as sofre»
Almeida Santos, Presidente do PS

Não senti revolta. Fiquei apenas triste.
Não admira que outros políticos nem o preço do bilhete do metro saibam, apesar de adorarem andar de metro.