sábado, 31 de julho de 2010

António Feio

«Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros.
Apreciem cada momento!
Agradeçam!
E não deixem nada por dizer,
Nada por fazer!»
António Feio

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Tágide

Uma das mais bonitas Tágides de João Cutileiro abandonou o pequeno lago da expo e subiu até à montanha, onde se banhou num ribeiro de águas cristalinas.
Conta a lenda que um jovem pastor, que por ali conduzia o seu rebanho, se enamorou da Tágide.
Hoje, junto ao ribeiro, numa pequena aldeia, correm crianças com corpos cor de mármore, cabelos negros e faces que fazem lembrar o escultor João Cutileiro.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Amor de mãe

Seguiu as pessoas que, em fila, esperavam para ver S. Bento.
S. Bento da Porta Aberta porque em tempos já longíquos, a ermida onde se abrigava o santo, servia também de abrigo a quem por ali passava, dado que estava sempre aberta.
Em casa uma filha doente, a companhia que lhe restava.
De joelhos circundou o santo. Uma, duas, um sem número de vezes.
Regressou a casa.
Maria, sua filha, preparava-lhe a ceia.
Ambas choraram. A mãe de alegria e de felicidade. A filha por ter o amor da mãe.
Em Agosto vamos as duas a S. Bento da Porta Aberta, disse a mãe, em voz baixa.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Um eremita

A caminhada até ao velho Mosteiro de Santa Maria das Júnias foi longa.
Mas ali chegado, saciei a sede no ribeiro e refresquei-me, tal como o fizeram, há muitos anos, os eremitas que por ali se encontraram com Deus.
Ao contemplar os três arcos que restam dos claustros, relembrei um sonho antigo. E imaginei um jardim florido cultivado por um eremita destes tempos.

domingo, 25 de julho de 2010

O guerreiro celta

Encontrei-o aqui bem perto, em Boticas.
Olhou-me com ar severo, de guerreiro. Para mim, sem dúvida tratava-se de um guerreiro celta, proveniente de um castro das redondezas.
Fitou-me, como se eu fosse o culpado pelo abandono a que foram votadas muitas das populações do interior.
Não sabendo que guerra se tinha travado e que levou a que nas velhas aldeias as pedras das casas fossem desmoronando.
Onde estão as pessoas, que só vejo um ou outro idoso? As minhas crianças?
E vi o velho guerreiro celta chorar de tristeza.

Amigos

Poderia estar agora na esplanada da casa da Patrícia, a falar de carros com o meu grande amigo Rui e rever grandes pessoas que um dia conheci em Santarém.
Ou estar em Portimão, junto ao Arade.
Mas mesmo longe, estou pertinho.
Porque a amizade é um sentimento que se desmaterializa e facilmente corre distâncias.
Acho que o meu amigo Rui deve estar feliz, porque adora estar com os amigos.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Woody Allen

Entrou na avenida cabisbaixo, com as mãos nos bolsos, ausente.
Se o pés pisavam a calçada, o espírito vagueava, bem longe.
Sempre com tantas pessoas em redor e sempre tão só.
O que fora grande esvaziava-se. O amor, a atracção, a química, mesmo a amizade.
Tudo ia ruindo como os velhos castelos. Caindo pedra sobre pedra.
Foi então que reparou na escultura de Woody Allen. Ficou surpreso. Tanto podia ser o cineasta como ele.
Porque, quando ambos se cruzaram, escultura e ele, ambos estavam pensativos, apreensivos, tristes.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A minha amiga americana

A aula era sobre o papel e benefícios de uma holding.
Na sala dois novos alunos.
Nem elas esqueceram que também existem sociedades mães e sociedades filhas, nem eu esqueci que a Clara tinha duas meninas lindas e bem dispostas.
Mas tarde, uma Inês, americana, tornou-se minha amiga no facebook. A minha amiga americana que um dia assistiu a uma aula.
Que felicidade encontrar pessoas assim!

terça-feira, 20 de julho de 2010

O jovem ardina

Naqueles tempos, o jovem ardina corria as ruas de Lisboa. Cada jornal que vendia eram uns centavos para ajudar em casa.
Muitos dos homens de hoje são filhos daqueles jovens trabalhadores.
E os filhos dos homens de hoje não sabem como os seus avós e os seus pais deram a volta à vida.
O amanhã vai ser um dilema.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O engraxador

Pensativos, engraxador e cliente cruzaram os pensamentos.
O cliente, à medida em que o sapato ia ficando lustroso, subia o seu astral. Que o sítio para onde as mulheres olham é para os sapatos. Por ali se vê um homem. Valia bem o dinheiro que pagava.
O engraxador pensava no destino a dar aos dois euros. Podia comprar pão para as crianças. Mas àquela hora já não arranjava pão. Talvez fosse melhor ir beber um eduardinho, ali mesmo ao lado, que a garganta estava bem seca.

Amor

De fugida, que os patrões não são para brincadeiras, Maria veio espreitar à janela.
Na rua, bonito como nunca, José, o seu magala, esperava o seu sorriso, o seu adeus.
Ela sorriu, ele sorriu. Quem os visse diria que estavam enamorados..
Anos mais tarde, numa aldeia perto do Fundão, um casal já com alguma idade, sentados no adro da igreja, relembra os anos da juventude, em Lisboa, onde agora têm os filhos e os netos.
E, como que envergonhados, dão a mão um ao outro.

domingo, 18 de julho de 2010

O frade

Para afagar a isolamento nada como um copo de um bom vinho da sua lavra.
Que é pelas suas mãos que passam aqueles cachos de uvas, obras de arte do Senhor, que acarinha até à vindima.

sábado, 17 de julho de 2010

A magia da natureza

O sol já se põe.
Manuel, aproveita o último minuto da luz do dia. Prepara a terra para as plantações.
Já não sente as mãos nem as costas, que a enxada é pesada. Mas está feliz!
É já noite fechada quando abre a porta de casa, carregado de couves, alfaces, tomate, feijão.
Come as migas e não tarda muito está deitado.
Ao seu lado, Maria ouve-o. As suas palavras são cânticos de amor à terra, à natureza que tudo cria.
Tu és um bom homem Manel, sussurra-lhe ela, orgulhosa do seu homem.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Estátua dum amor eterno

Sentada numa pedra, no Jardim da Estrela, fechou os olhos, relembrando os seus momentos de amor.
E, como que por encanto, viu-se nua, espreguiçando-se.
Sentiu os abraços dele, fortes e quentes.
No seu regaço uma flor caída de uma árvore.
Queria ficar assim eternamente.
E Deus fez-lhe a vontade. Transformou-a em estátua.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O fotógrafo fotografado

Como será estar a ser olhado pelo fotógrafo?
Pegamos na máquina, fixamos e capturamos a imagem.
Mas o que verá a imagem ao ser capturada.
Olhará para o olho do fotógrafo e pensará: que irá ele fazer com a minha foto? Será que de um simples pato vai fazer um bruxo? Ou de um bonito pavão, uma mulher querida?
Lembro-me de num sítio conhecido as mulheres dizerem que o fotógrafo ia lá para poder mostrar a miséria. E isso fez-me pensar.
Que, realmente, é fácil olhar, fotografar, dizer: vejam só, estão assim, mas podiam estar de maneira diferente.
Mais difícil é o fotógrafo colocar-se do lado de lá.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O bruxo

Cabelo grisalho, que a idade não perdoa.
Faces avermelhadas do sol e do álcool, que os dias são soalharentos e as noites muito longas.
Ar carrancudo. Porque, quanto mais sofrimento têm as pessoas, mais odiosas se tornam.
E ele, um bruxo de reputação, não tem mãos a medir.
Tira as invejas, as pragas, o quebranto.
Mas fica com pena desta sociedade pequenina, mesquinha, triste.
E, quando bebe um copito a mais, imagina que o Homem é ainda um ser selvagem, saído de uma floresta desaparecida.

Mágoas

Teu rosto altivo esconde tanta mágoa.
Tentas sorrir. Mas o teu coração está triste.
Dás palavras meigas. Mas por vezes apetece-te fugir para um sítio onde não tenhas de falar.
E, no entanto, continuas a sorrir, esperando que o dia de amanhã seja melhor.
Que força, que altivez.
Invejo-te.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Pérolas de S. Tomé

Em Morro Peixe, S. Tomé, descobri estes dois amores.
São pérolas daquele país bonito e maravilhoso, onde deixei bons amigos.
Um dia destes tenho de voltar. Tenho muitas fotos para entregar, muitas saudades para matar.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Minha mãe

Faz hoje anos que perdi minha mãe.
Desta vez faltam as palavras para expressar o que então sofri.
Redescobri-a uns anos mais tarde.
Como me diria alguém um dia destes, não é por mero acaso que encontramos as pessoas que nos marcam.
E, se nesse dia a minha mãe partiu do seu corpo sofrido, nesse dia, também, alguém recebia o amor de uma nova vida.
E, se então fiquei triste, agora fico contente.
Que a vida é feita de tristezas e alegrias.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O sonho da piranha

Vinda provavelmente do Amazonas, a piranha, embalsamada, jaz numa estante da sala.
Mas, quando não está ninguém por perto, a piranha sonha que salta da estante para aquele rio ali tão perto.
Vive agora nas águas do Tejo, ameaçando quantos por ali se aventuram.
É apenas um sonho de piranha.
À noite, quando ouve passos, volta a ser a piranha embalsamada, quietinha na estante.

domingo, 4 de julho de 2010

Dedos da mão

Esticou a mão.
E os seus cinco dedos transformaram-se em fadas, seres que se assemelhavam a cobras coloridas.
Mas que eram fadas, porque daqueles cinco dedos saíram obras maravilhosas.
São assim as mãos dos artistas.
E também as mãos de cada um de nós.

Os vampiros

Eles comem tudo,
Eles comem tudo,
E não deixam nada!
Zeca Afonso

sábado, 3 de julho de 2010

A terra

Na lezíria, bem perto de Vila Franca, o homem prepara as terras para a sementeira.
Cultiva-as com carinho. Depois deita-lhe a semente.
E a terra, na sua ânsia de procriação, fecunda as sementes e garante o sustento da família.
A terra é a natureza.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

No Gerês

As cabras encheram a estrada no Campo do Gerês.
E eles sorriram um para o outro, deram as mãos, trocaram olhares. Estavam felizes.
A estrada ficou livre.
Mas eles continuaram ali parados, vivendo cada segundo daquele tempo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A cruz

Foi no Campo do Gerês que se deparou com esta imagem de Cristo crucificado.
E, desesperado como estava, não perdeu tempo, a contar as suas mágoas.
Jesus, cansado de o ouvir, disse-lhe:
- Achas que a tua vida é uma lástima? O que direi eu? Não me bastou ser pregado numa cruz e ali morrer em sofrimento. Não foi suficiente! Há dois mil anos que os homens me têm preso numa cruz.
Olhou para a imagem de Jesus e as suas mágoas, como que por milagre, desfizeram-se.
Chegou a casa, deitou fora os crucifixos e, ele próprio, modelou um Jesus Cristo ressuscitado, livre do pesadelo da cruz.
E foi com felicidade que começou a olhar o mundo e os seus semelhantes.