quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A creche da fábrica

Creche da Vista Alegre
Enquanto o autocarro subia na direcção da Graça, em Lisboa, a senhora idosa, que se sentou ao meu lado na Feira da Ladra, ia falando para ela própria.
Que a vida naquele tempo era difícil, ganhava-se pouco. Mas não era a imoralidade de hoje. Os recursos não eram muitos, os ladrões também não o eram, como são hoje (bastava ver que o Salazar morrera sem qualquer património).
Se não havia dinheiro, havia, pelo menos, solidariedade e respeito por quem trabalhava. As grandes fábricas até tinham creches, refeitórios, bairros.
Não respondi. Que haveria de responder? Se tudo aquilo começava a ser uma verdade para mim.


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A grande tristeza

Acabei de ler «A Cabana».
Um pai que perde a filha de seis anos, assassinada.
Um encontro com Deus, numa cabana, quatro anos depois da «grande tristeza» que não mais deixou de o atormentar.
A surpresa de um Deus bom, que ama os seres humanos.
Mas, também, o compreender que as religiões e a política, mais não são do que más criações do homem, que apenas servem para alguns seres humanos serem superiores à restante humanidade.
Custou-me o pai ter perdoado ao assassino da menina. Mas eu ainda não sei o que é o amor entre os semelhantes.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Lavradores

Escultura na Chamusca

Lavraram a terra que lhes deu alimento,
Lavraram o corpo que lhes deu os filhos,
Lavraram a vida.

domingo, 23 de outubro de 2011

Um anjinho


A Joana emoldurou este teu desenho, que criaste numa terça feira, depois do ballet.
Sob um céu azul e com um sol sorridente, imaginaste uma menina no campo, com borboletas e  flores e um grande laço no cabelo.
Hoje fiquei a olhar para a moldura.
E vi um anjinho a pairar sobre o campo, sobre o teu catavento, aquele que eu espreito, a ver se roda.
E como ele rodopia na mãozinha que pintaste.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A despedida

Ontem, quando uma aluna se despediu dos colegas, tão contente, eu fiquei com inveja.
Como era possível tanta alegria, se todos estávamos tristes.
Ia embora. Ia para o Canadá.
E eu pensei que, para mim, era já um pouco tarde.
E imaginei a minha velhice.

O modelo asiático

Quem viu as notícias de hoje, viu dois carros atropelarem uma criança. Sem pararem.
Viu 18 pessoas passarem por essa criança atropelada, sem pararem.
Viu a completa ausência de valores humanos.
Na Ásia, China.
Lembrei-me do modelo que estes políticos defendem para Portugal. Dizia João Salgueiro, há um ou dois dias, que temos de nos aproximar do modelo asiático, onde se ganha um 1/4 do do nosso ordenado (não é o dele) e ainda se poupa 30%.
Na verdade, o que os donos do país defendem são dois modelos: um para eles, baseado na riqueza, em altos padrões de vida; outro, o dos trabalhadores, baseado apenas no necessário para que a fonte de trabalho não morra.
E o que mais doí é que apenas se ouvem as vozes dos donos da quinta e dos seus capatazes.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Um povo contente e descontente

Manifestação da geração à rasca - 12/03/2011

A «Democracia», ou seja o regime de alternância política, é uma coisa boa.
Quando o povo está farto de um governo do PS, elege um novo Governo, do PSD, que antes de entrar no Governo faz grandes promessas e, quando governa, age de maneira completamente diferente, porque não sabia bem o estado em que se encontrava o País.
Farto novamente, o povo lá vai às urnas, muito contente, de fato domingueiro, eleger um novo governo, agora do PS, que prometeu mundos e fundos, mas que, depois, toma medidas opostas às promessas, porque também não sabia o estado em que o País estava.
Enquanto isso, a riqueza que existe vai ficando na mão de uns poucos e a prole de pobres é cada vez maior.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O rio da sua vida

Era o seu rio de tanto tempo.
Da meninice, da adolescência, da juventude, da idade adulta.
E que alegria em mostrá-lo, assim, quando a lua substitui o sol e se projecta, tímida, sobre o rio.
Que contentamento lhe inundou o coração.
Fora do rio, corria um mar profundo, com areias movediças, fundões e correntes fortes.
E foi nesse mar tenebroso que o ser, a quem mostrara o seu rio, voltou a entrar.




domingo, 9 de outubro de 2011

Cansaço

Grafitti no Bairro Alto - Lisboa
Fechou os olhos de cansaço e deixou que o fumo do tabaco a inundasse.
E não disse uma só palavra durante o resto da noite.

sábado, 8 de outubro de 2011

Foto de uma fotógrafa pequenina

O gosto pela fotografia começava a despertar.
Apenas com seis anos, Mariana tinha já a sua máquina fotográfica, uma compacta digital Pentax, cor-de-rosa como ela gostava.
Fica uma foto captada pelos seu sentido artístico e pelos seus dedos pequeninos.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A escultura

Com cuidado, porque se poderia partir, mostraste-me a tua escultura de argila, moldada com as tuas mãos. A escultura representando a tua mamã.
A primeira escultura para ambas.
E eu, de mansinho, fotografei a tua obra prima.

O nosso lado mau

O Holocausto - Grafitti no Bairro Alto - Lisboa
O lado mau de Hitler foi uma catástrofe.
E o nosso?
Não tendo a mesma dimensão, não contribuirá para a infelicidade de outros semelhantes?

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Sem abrigo

Olhei-o com certa inveja.
Ele, um sem-abrigo.
Eu, um ser impregnado por esta sociedade em decomposição.
Ele, um rebelde.
Eu, um submisso.
Ele, livre.
Eu, um prisioneiro.
Estive tentado a trocar com ele. Descalçar-me, meter as botas ao pescoço, pegar na mala e ir por aí fora.
Mas, sem o dizer, o sem-abrigo diz-me que não quer a troca. Porque, na realidade, o sem-abrigo sou eu.

domingo, 2 de outubro de 2011

O catavento da menina

Na planta, umas mãos de menina, gravadas por ela própria a tinta cor-de-rosa.
Na palma de uma das mãos o suporte do catavento que um dia lhe ofereci.
E, na cadência das minhas palavras, o catavento girava, tremia, rodava de contentamento.

Noite de fados com Célia Leiria

Fui à noite de fados ouvir a voz maravilhosa da Célia Leiria.
E quando a Célia me dedicou o fado «Senhora do Livramento» eu fiquei comovido e pensei que quem ali estava eras tu. E foi a ti que a Célia dedicou o fado. Porque não há ninguém que mais tenha sofrido com a sua partida.
Enquanto uns choram para fora, gritando as suas dores, tu choras para dentro, sofrendo em silêncio.
Tenho pena de não ser um deus. Provavelmente teria aliviado a dor da perda do teu irmão, do teu pai e da tua menina.
Infelizmente eu não sou um deus. E os deuses andam um pouco arredados da terra, eventualmente, porque estão ocupados com outros mundos.
E o que mais me faz sofrer é que alguns seres humanos andam também noutros mundos, sem reparar que é neste mundo que vivem e deveria ser aqui a manifestação do seu amor, do seu carinho.