quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O vendedor de galinhas

Corria o ano de 1804. Ambrósio do Cano veio para Lisboa vender galinhas. As senhoras compravam.
Ambrósio casou, teve um filho, de nome Ambrosino.
Ambrosino foi visto em Lisboa, no ano de 1830, a vender galinhas.
O filho de Ambrosino, de nome o Ambrósio das Galinhas, criou os filhos com os dinheiro dos ovos e galinhas de um galinheiro que tinha no sitio que se chama hoje as Galinheiras. Morreu por volta de 1900.
Um filho do Ambrósio das Galinhas, nascido e criado nas Galinheiras, em Lisboa, fez vida à custa dos galinácios.
O Ambrósio das Galinhas teve vários filhos, netos, bisnetos.
Por volta do ano de 1980, um descendente de Ambrósio do Cano decidiu deixar de negociar em galinhas.
Foi o descalabro e a sociedade ficou muito mais pobre. Não porque tivesse faltado carne da pobre ave, mas porque ficou na sociedade muito mais avareza, falta de humanismo, porque as pessoas não são aves de capoeira.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Natureza

Quando parece que tudo corre mal, sento-me num jardim e observo a beleza que emana das flores.
Deixo-me transportar para uma outra dimensão e, bem depressa, esqueço a maldade de seres humanos, nem que seja por uns momentos.

sábado, 8 de janeiro de 2011

A passarinha

Já a tinha visto perto de S. Domingos, entre a cidade da Praia e o Tarrafal. Mas não tive a oportunidade de a fotografar.
Foi em S. Filipe, na Ilha do Fogo, que capturei a sua imagem.
Enquanto fixava a objectiva rendia-me, submisso, pequenino, aos encantos, aos contrastes que se completam, à  natureza!
Que construção maravilhosa, plena de vida, de beleza, de contrários que se completam para continuar a vida.
Fotografei-a! A passarinha em todo o seu esplendor.

Menino rico

Fomos os três à pesca ao Tejo Velho.
Chegados, eu e o Luís Teodoro armámos as nossas canas de pesca, tão pequenas que mal conseguíamos atingir a profundidade do chabouco, nessa altura bem profundo. E, com fio que dava para pescar um tubarão, esperámos que algum peixe descuidado por ali aparecesse.
Afastado de nós, o António esgrimia a sua nova cana de competição, telescópica, que mantinha na mão. Ficámos a olhar, a sua destreza, o engodar permanentemente, a boia esbelta, o peixe a saír.
Olhámos um para o outro e pensámos: menino rico!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Pessoas boas

Há pouco tempo fiz uma viagem de táxi. E o que mais me impressionou foi o facto do taxista não ter desviado a cabeça durante toda a viagem. Para não falar da sua boca que nunca se abriu.
Enquanto apreciava o homem, lembrei-me de uma outra viagem.
Estudava e tinha de fazer o trajecto entre S. Bento e Santa Apolónia para apanhar o comboio para Santarém. Era já perto da meia-noite. Se não apanhasse um táxi não conseguiria apanhar o comboio.
E apanhei. Mas como o dinheiro escasseava e as dificuldades eram muitas, disse ao taxista que só tinha x escudos. Ele que me levasse até onde o dinheiro chegasse.
Ao passar no Terreiro do Paço, o taxista pára o carro e o taxímetro e anunciou-me que o dinheiro só dava até ali. Contudo, como ia para Santa Apolónia, dava-me boleia!
Há pessoas boas.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Cordero asado

Passou junto à montra de um restaurante e leu o prato do dia.
E ali ficou especado, embrutecido, pensativo.
Era precisamente o seu estado de alma nesse ano que entrava. Um cordeiro inofensivo, como os demais cordeiros do rebanho, assado para satisfação da gula insaciável de uns tantos.
E, curiosos, passaram outros cordeiros que, também, pararam, olharam e sorriram.
O rebanho é mesmo assim.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Alegremente, no autocarro

«Os camponeses tristes passam alegres no autocarro,
cantando e dando vivas ao longo do percurso.
Vão todos à cidade, de fato novo, aplaudir o discurso.
O discurso é triste, os camponeses são tristes,
mas passam todos, alegremente, no autocarro.
António Gedeão, Obra Poética